quinta-feira, 16 de março de 2006

Para que não nos continuemos a lamentar: Um novo destino para o IDE

(artigo da autoria de Francisco Pinheiro Catalão e Joaquim Miranda Sarmento publicado no dia 14 de Março de 2006 no "Jornal de Negócios")


As vantagens do Investimento Directo Estrangeiro (IDE) para os países que o recebem são amplamente reconhecidas: Transferência de novas tecnologias, promoção de concorrência, disseminação das melhores práticas de gestão e de produção, melhoria dos níveis de formação profissional e de competências e acesso a mercados internacionais.

Se restassem dúvidas sobre a importância do IDE no desenvolvimento da Economia Portuguesa, reflicta-se sobre este ponto: Seguindo o modelo competitivo descrito por Michael Porter, as empresas competem na base do preço ou da diferenciação. Assim, a tendência futura é de existirem poucas (grandes) empresas, que operam a nível mundial (com economias de escala) e muitas (pequenas) empresas, que competem na base da diferenciação ou no outsourcing das multinacionais.

Sucede que, com excepção de 3, 4 sectores (cortiça, pasta de papel, cimentos, …), as empresas Portuguesas serão sempre pequenos ou médios players em termos internacionais.
Assim, não é dificil compreender que a economia Portuguesa vai competir sobretudo baseada em PME's, e desiludam-se aqueles que acham que subsídios são a melhor forma de criar empreendedores.

Medidas avulsas são benéficas (e.g acordo com a Microsoft), mas só serão realmente positivas se tivermos uma visão global e estratégica dos problemas do país e de como os resolver.

Antes de tudo é necessário criar condições internas (mercado laboral, pouca burocracia, impostos baixos, etc). Não só beneficiará a nossa capacidade de atrair IDE como beneficiará a política comercial das empresas nacionais e criará condições para que as empresas nacionais possam numa primeira fase acumular mais capital e futuramente internacionalizarem-se.

Assim, a aposta futura deverá passar pelos seguintes passos:

1) Em que sectores temos vantagens competitivas?
2) Em que sectores vale a pena procurar trazer investimento estrangeiro?
3) Dentro destes sectores, em que segmentos competir?
4) Dentro dos segmentos quem são os players mundiais que podem trazer vantagens a Portugal?
5) Qual o benefício de um projecto e até onde podem ir as concessões de diferente tipo (fiscais, subsídios, etc).

Não é um exercício complicado prever os sectores/segmentos: Turismo (segmento médio alto/alto; segmento residencial); Software (aproveitando alguns casos de sucesso empresarial nacional); Energias renováveis ( apanhar o comboio no sector eólico e solar; Pioneiros no sector da energia das marés); Ambiente (Biomassa; Reciclagem, etc).

Definida a matriz é essencial promover Portugal como destino atractivo para os investimentos estrangeiros, através da adequada coordenação entre as distintas administrações/organismos (central, local, API, etc), por forma a serem usadas como instrumentos desta política.

A aposta será então atrair projectos de investimento “âncora”, como foi o caso da AutoEuropa. Este projecto, que infelizmente foi o último grande projecto de IDE, trouxe consigo, sobretudo a montante, a criação de um conjunto de médias empresas no distrito de Setúbal, que se lançaram no mercado mundial fornecendo a AutoEuropa, mas que agora competem a nível mundial, tendo outros clientes para além da fábrica de Palmela.

Com estes investimentos Portugal entrará na fieira de novas tecnologias/mercados, e criará a montante e a jusante novas PME's que, com a curva de aprendizagem, serão capazes, a médio prazo, de competir a nível global.

No entanto, apesar de acharmos que este é o caminho, tal não será concretizável se não melhorarmos a qualidade do nosso Capital Humano.

Como? Apostando em medidas como o alargamento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano, com uma aposta forte no ensino técnico, introduzindo rapidamente o tratado de Bolonha, adequando os conteúdos programáticos às reais necessidades do mercado de trabalho.

Mas também introduzindo “numeros clausus” estratégicos, para que não se continue a formar jovens licenciados para o desemprego, em virtude de os seus cursos não terem qualquer conexão com a realidade económica e das empresas.

É igualmente importante avançar com medidas inovadoras no ensino superior, nomeadamente tornar obrigatório a frequência de um semestre numa universidade estrangeira.

Estas medidas e outras serão essenciais para evitarmos o tradicional sentimento nacional de fatalismo perante as situações dificeis e combateros o que muitos gostam de chamar de “triste fado” da economia nacional cada vez que uma empresa deslocaliza um investimento para um outro país. Isso não nos deve supreender e não podemos continuar a afirmar que não percebemos o que sucedeu. Tal factor é apenas um reflexo do nosso atraso estrutural face às leis de mercado e à globalização. Temos que nos adaptar aos desafios do futuro, temos que mudar de atitude!

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