terça-feira, 21 de março de 2006

DEBATER O NUCLEAR
Voltou a ser introduzido na sociedade Portuguesa o debate sobre a opção pela energia nuclear. E em boa hora, independentemente da opinião sobre o nuclear, uma vez que as questões energéticas estão cada vez mais na ordem do dia.
Portugal tem de se preocupar com maior atenção para dois temas, que vão ser de importância fulcral na evolução mundial: a água e a energia.
Ainda para mais, Portugal é hoje um país com uma elevada dependência energética, em virtude de produzir energia a partir sobretudo de petróleo e gás, duas matérias primas que não produz. E como se isso não bastasse, Portugal apresenta também um elevado défice de aproveitamento energético.
Ou seja, não produzimos e ainda gastamos mais que o necessário, tornando o resultado desastroso quer para o crescimento económico, quer para o saldo da balança de transacções correntes.
Assim, importa no médio prazo resolver este problema estrutural: Produzir mais energia, poupar energia, importando assim menos, ficando menos condicionado a factores de ordem geo-estratégica que Portugal não controla.
Por isso, a discussão do nuclear é importante, mas é igualmente importante que o debate não fique enviesado nem limitado a apenas um aspecto do problema.
Antes de iniciar o debate sobre o nuclear, e o autor destas linhas não é um especialista na matéria, importa reflectir sobre os seguintes pontos:
Qual vai ser o crescimento do consumo de energia ( e dentro da energia, do consumo de electricidade) nos próximos 20 anos? Dentro desse aumento, quanto é que pode ser reduzido, por via de medidas de eficiência energética? ( nomeadamente sobre os 3,5 milhões de edifícios, sobre o consumo de combustíveis nos transportes, etc). E qual é o potencial energético que o país dispõe em termos de energias renováveis? Ou seja, quantas mais hídricas e mini hídricas é possível construir de forma rentável? Qual o potencial do sector da energia eólica, biomassa, solar e da energia das mares?
Somente depois desse balanço, é que ficaremos a saber quanta electricidade ( porque a central nuclear só produz electricidade, colmatando somente essa necessidade de energia) continuaremos a depender da produção de ciclo combinado ( gás e fuel). Sendo que temos de compreender igualmente que importa reduzir ao mínimo as necessidades de electricidade. Isto porque a electricidade é a forma de energia mais dispendiosa, quer na produção, quer na distribuição, com perdas de energia na ordem dos 60%.
Sintetizando: Nuclear? Talvez. Mas só como final de linha, nunca como lugar de partida. Primeiro avaliar as necessidades actuais e futuras. Depois analisar o que se pode poupar e o que se pode produzir de forma alternativa e que seja rentável. Respondidas estas questões então analisar se o nuclear é ou não viável. Sendo que importa salientar que nos parece difícil que uma só central seja rentável ( dando contudo o benefício da dúvida ao consórcio privado), que os investimentos nas linhas de distribuição são elevados, que existem riscos sísmicos que não são displicentes ( apesar da elevada segurança demonstrada pelas centrais nucleares nos últimos 20 anos e do facto de Espanha ter centrais nucleares bem perto da nossa fronteira), que os custos de manutenção e de segurança não serão diluídos por várias centrais, que o impacto na produção de CO2 não é também displicente ( apesar de a central ao produzir energia não produzir CO2, ao contrário das de ciclo combinado, a sua construção e a extracção de urânio produzem bastante CO2), que altera significativamente o nosso modelo de sociedade, que pode deixar de colocar a tónica fundamental na poupança de energia e não no seu gasto, e por último, que há mais de 20 anos que não se constrói uma central nuclear na Europa e que dentro de 10-15 anos surgiram novos modelos, quer de carvão limpo, quer de novos reactores nucleares mais seguros e mais limpos.
A nossa esperança é que o país acorde para um debate fundamental: o nosso futuro energético. E que não acorde para esse debate com preconceitos, ou com ideias estereotipadas.

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