terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Um Novo Turismo para Portugal (II)

Portugal tem neste momento, salvo raras e elogiosas excepções, o seu turismo direccionado para um segmento que quer praia e sol, mas para um “turista-tipo” que compra o seu pacote turístico na Alemanha ou em Inglaterra e que não pretende efectuar muitas mais despesas no nosso país, e não se preocupa em demasia com a qualidade do serviço.

Estamos pois a perder a batalha do “bom-turista”, para países como a Espanha, Itália, Grécia ou para os novos países bálticos que através de políticas publicitárias mais agressivas, ofertas turísticas de maior qualidade e segmentadas para classes mais elevadas de rendimentos acabam por beneficiar de uma procura turística mais exigente e que acaba por trazer melhores resultados em termos de criação de riqueza para o país.

Para conseguirmos este turismo/turista temos de começar a apostar em medidas que não são apenas estruturantes para o país mas também para a promoção da imagem de Portugal no exterior.

Como?

Melhorando as vias de comunicação internas, não faz sentido, por exemplo, que uma viagem ferroviária Lisboa - Faro demore tanto tempo para a distância percorrida e que seja efectuada em comboios (não vou dizer de má qualidade, mas podia!) sem a qualidade média da restante oferta ferroviária europeia.

Mais, a criação de um Hospital Central no Algarve deveria ser outra prioridade urgente, para que os turistas (nacionais ou estrangeiros) possam ser atendidos com o mínimo de condições que o actual hospital não oferece.

Devemos também continuar a apostar como tem sido feito, e neste caso bem, nos últimos anos, na realização de eventos internacionais, congressos, seminários, reuniões de quadros de multinacionais em Lisboa e no Porto, mostrando uma imagem de modernidade e de organização que já demostrarmos ter.

Mas devemos aproveitar estes eventos para promover Lisboa e o Porto como city-breaks de referência na Europa, se muitos turistas vão passar fins de semana a Madrid, Londres e Paris, porque não a Lisboa? Temos bom clima todo o anos, boa comida, alguns bons hotéis, temos história, oferta cultural, só não temos é uma promoção séria e competente do país e da sua imagem no exterior.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

O SECTOR DO TURISMO EM PORTUGAL - ALGUMAS NOTAS

Atenda-se a este número: Em 2003 Espanha construiu cerca de 650 mil novas habitações (entre apartamentos e moradias). O número em si diz pouco. Mas basta dizer que se tratou de um recorde Europeu no pós-2ª Grande Guerra. Nem a Alemanha devastada pós-45 ou a Alemanha pós-reunificação construiu tanta casa!
Qual foi o segredo Espanhol para vender este número colossal de habitações sem cair numa bolha imobiliária de proporções devastadoras? Outro número surpreendente: Um terço foi vendido a estrangeiros! Sobretudo reformados/turistas do norte da Europa.
Significa que Espanha apostou muito fortemente num segmento de turismo: O turismo residencial. Vantagens? Variadíssimas: “Boom” no sector da construção; Reduz a sazonalidade do Turismo (os reformados que adquirem casas em Espanha vem passar o Inverno (faz menos frio que na terra deles), mas regressam aos seus países no Verão (faz demasiado calor no sul de Espanha); Dinamiza a economia; Aumenta os impostos cobrados.
Mas sobretudo, estes 200-300 mil “novos residentes” do sul de Espanha, atenuam os efeitos da variação da procura entre o Verão e o Inverno, normal numa oferta baseada em calor – praia, uma vez que passam 3 a 5 meses (menos de 183 dias por motivos fiscais) durante o Inverno.
Trata-se de um segmento em que Portugal tem apostado pouco. Com condições iguais ou melhores que os Espanhóis, excepto em dois pontos: cuidados de saúde e qualidade urbanística.
Se focalizamos naquilo que podemos oferecer de bom (calor no Inverno, hospitalidade, tranquilidade, gastronomia e vinhos, bons preços) e lhe juntássemos habitações de elevada qualidade e bons cuidados de saúde não seria difícil trazer 50-60 mil novos “turistas residenciais” por ano (vendendo 30 mil casas por ano) durante os próximos de 10 anos. Se cada um representar de valor acrescentado no primeiro ano (em que adquire a casa) um valor de 100.000 Euros por casa, e nos anos seguintes um valor de 5.000 Euros, teremos um impacto no PIB por ano superior a 3 mil milhões de Euros, qualquer coisa como 2% do PIB, o que traria perfeitamente 0,5%-0,7% de receita fiscal.
Como faze-lo? Aposta forte no marketing, seleccionando os países alvo e os segmentos. Depois impor regras de urbanismo para este segmento (incentivando a qualidade, protegendo o meio ambiente e autorizando habitação de qualidade superior). Por último reduzir o peso dos impostos sobre o património para os não residentes.
A solução é manter os pontos em que somos fortes e melhorar aqueles em que somos menos fortes.
A aposta tem dado frutos em Espanha. Porque não dará também cá?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Um Novo Turismo para Portugal (I)


O turismo deve ser um dos principais instrumento privilegiado de projecção para dar a conhecer Portugal.

Os milhões de turistas que nos visitam todos os anos deverão ser o principais meio de publicidade do Portugal moderno e desenvolvido que queremos construir.

Por isso devemos ter consciência da importância do cuidado que devemos ter, quer com a qualidade dos serviços prestados e quer na escolha dos segmentos alvo que pretendemos alcançar para promover o turismo nacional.

Medidas que apostem na qualificação da oferta de mão-de-obra são importantes, não só para o próprio turismo, como também para a própria imagem de Portugal no exterior.

Portugal deve apostar em novos produtos turísticos com alto valor acrescentado em termos ambientais, que promovam um equilíbrio entre a oferta turística e o meio ambiente.

Devemos premiar aqueles empresários que apostem na qualidade das suas ofertas, apostando num turismo de qualidade. Para isso é necessário recrutar mão-de-obra qualificada, ir buscar jovens licenciados às escolas de turismo e que podem fornecer um valor acrescentado ao serviço prestado.

Devemos apostar numa segmentação da oferta turística, apostando em nichos de mercado como o golfe e o binómio sol/praia. Isto porque as receitas do golfe já representam quase 2% do PIB nacional (com grandes previsões de aumento quer do n.º de campo de golfe quer do volume de receitas associadas) e porque somos sem dúvida nenhuma o país com mais horas de sol da Europa e uma das mais extensas costas marítimas da Europa.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

A EVOLUÇÃO DA DESPESA PÚBLICA EM PORTUGAL NOS PRÓXIMOS 10 ANOS: ALGUNS COMENTÁRIOS – PARTE 1


A evolução futura da Despesa Pública (DP) será a principal condicionante do nosso desenvolvimento e da nossa capacidade de sair da crise e convergir face à média Europeia, ao invés de divergir.
Se não formos capazes de reduzir a DP nos próximos 10 anos para níveis comportáveis pela nossa economia e que estejam, num benchmarking com os nossos parceiros da EU, ao nível dos outros países, então será impossível recomeçarmos uma nova fase de crescimento económico.
Contudo, não basta dizer isto. É necessário perceber que temos de fazer dois esforços simultâneos: Por um lado reduzir o nível da DP face ao PIB; Por outro lado melhorar os outputs que o Sector Público produz para os cidadãos e o País, porque como veremos mais à frente não vai ser fácil diminuir a DP.
Centremos neste texto no primeiro ponto: Como baixar o nível da DP face ao PIB, que neste momento é de cerca de 50% se considerarmos toda a despesa, e de cerca de 40 % se considerarmos a despesa corrente primária.
A análise da Despesa Pública revela-nos que existem 4 grandes áreas de despesa: Saúde, Segurança Social, Educação e Juros da dívida pública.
Não é difícil compreender a margem e a elasticidade de evolução destes grupos de despesa pública. Vamos analisar cada um deles.
Saúde e Segurança Social: A tendência futura, a manter-se o actual cenário demográfico e não havendo reformas de fundo, será de crescimento da DP, de forma acentuada no caso da Saúde e exponencial no caso da Segurança Social. O factor demográfico é implacável, o que fará com que exista a necessidade de maiores cuidados de saúde, e também que o rácio activos/reformados diminua drasticamente, conjugado ainda com o aumento do tempo de recebimento da reforma.
Nesse sentido, urge repensar o sistema de Segurança Social, nomeadamente na contribuição individual e da entidade empregadora, da responsabilidade financeira do Estado na Caixa Geral de Aposentações, da gestão dos recursos gerados e da capitalização, e sobretudo da alteração do cálculo da reforma.
Igualmente é fundamental reformar o Serviço Nacional de Saúde, fazendo o duplo binómio que falamos no post sobre a Reforma da AP. Por um lado o binómio Público-Privado, por outro lado, o binómio Poder Central-Poder Local. É necessário que o SNS não entre em colapso quer financeiro, quer de funcionamento.
Juros da Dívida Pública: O aumento do stock da dívida pública, que está quase nos 70% do PIB, conjugado com o aumento das taxas de juro e uma provável deterioração do rating da República, levará no futuro a um aumento dos encargos do Estado com os juros da dívida pública, e consequentemente, uma pressão sobre as Finanças Públicas.
Educação: Esta é a única área em que existe “margem de manobra”. Por um lado porque aqui o efeito demográfico é inverso aos da Segurança Social e da Saúde. Cada vez menos jovem significa custos inferiores. Mas por outro lado porque a necessidade de melhorar o nosso ensino não passa por gastar mais, mas sim gastar melhor. Ninguém hoje dúvida que se gasta muito e mal no sector da Educação.

Vemos assim que nas 4 grandes áreas de DP, 3 são de tendência de aumento a médio e longo prazo (Saúde, Segurança Social e Dívida Pública). Apenas em uma existe uma “tendência natural” para se reduzir a DP.
Ora, qual é efectivamente a margem de cortes na despesa a longo prazo, actualizando os valores para o presente?
Visão optimista: 1% do PIB na Educação; Manutenção do rácio DP/PIB nos sectores da Saúde, Segurança Social e Dívida Pública (o que significa estancar o aumento galopante da despesa nestas áreas, reformulando-as profundamente, o que não se afigura fácil); Redução dos gastos com pessoal e aquisição de bens e serviços nos outros sectores do Estado: 1%-2% do PIB. Tudo somado: 3% do PIB na melhor das hipóteses, a preços de hoje. A outra alternativa, para cortar 1/3 da DP é alterar o Estado Social de uma forma tão radical que não nos parece viável.
Qual é a alternativa para diminuir o rácio da DP/PIB para valores na casa dos 35% do PIB? Aumentar o denominador da fracção, ou seja, aumentar o PIB. Promover crescimento económico!