Com este “post” iniciamos no “Cumprir Portugal” uma série de textos e artigos sobre o tema mais discutido e comentado na Sociedade Portuguesa os últimos anos, a par da crise financeira do Estado: A reforma da máquina burocrática da AP.
A reforma da AP, no seu sentido lato, ou seja, a reforma do Estado, terá de ser elaborada partindo de uma visão estratégica e somente depois os aspectos tácticos. Primeiro o onde queremos estar (estratégia); Só depois como vamos lá chegar (Táctica).
Por isso importa primeiro definir qual a estratégia do nosso Estado. Quais as áreas vitais do seu funcionamento e quais aquelas em que pode competir com o sector privado ou em que nem sequer se deve imiscuir?
Qualquer autor, por mais liberal anti-estatista que possa ser, define funções de soberania para o exercício do Estado: Defesa, Diplomacia, Finanças, Justiça e Segurança Interna. São áreas de domínio exclusivamente público, onde não se vislumbra campo de manobra para outro tipo de agentes. Mas isso não significa que não estejam também na preocupação dos agentes económicos e das entidades privadas.
Recentemente, a evolução económica trouxe para a esfera de influência do Estado outras funções, que são igualmente vitais ao desenvolvimento de um país: A regulação económica de sectores estratégicos ( Telecomunicações, Energia, Águas, Ambiente, Comunicação Social, Concorrência, etc); A defesa do património natural e histórico, O fomento das relações económicas com outras áreas geográficas (onde se inclue a diplomacia económica e a intervenção governativa de apoio à internacionalização dos grande grupos, como Espanha faz tão bem).
Por sua vez, o desenvolvimento económico, sobretudo no pós 2ª Grande Guerra trouxe a criação do Welfare State, e trouxe para o âmbito da acção do Estado áreas que não sendo vitais para o funcionamento do país, nem sendo funções de soberania, são, pelas externalidades que originam, muito importantes para a generalidades dos cidadãos e para o desenvolvimento do País: A educação, a saúde, a cultura, a segurança social, etc.
Contudo, importa neste momento definir: Qual é a missão do Estado?
E, em nossa opinião, fazer a confrontação Público vs Privado. Ou seja, o que não deve sair da esfera pública e o que pode ser feito pela esfera privada.
No âmbito da esfera pública, o Estado deve centrar-se nas funções de soberania atrás descritas (Defesa, Diplomacia, Finanças, Justiça e Segurança Interna). Também deve continuar no seu papel de regulador dos sectores estratégicos da economia e da sociadade. Mas apenas como regulador, usando as normas legais para intervir, dando orientações e impedindo abusos por parte de alguns agentes económicos, nomeadamente a formação de monopólios e carteis. Nunca como interveniente, como investidor ou como participante do lado da oferta.
As chamadas funções sociais tem de ser partilhadas com o sector privado. Para se alcançar a redução do peso do Estado e consequente resolução dos problemas financeiros e redução da carga fiscal, por forma a voltarmos a ser competitivos.
Após esta definição do binomio Estado – Privados, importa avançar para uma segunda fase: a relação Poder Central – Poder Local.
Ou seja, definir o que devem ser funções/tarefas do poder central, nomeadamente no estado social ( uma vez que as funções de soberania e as funções reguladoras são evidentemente uma função do Estado poder central). E depois descentralizar para os municípios o que não requer a acção do poder central. Nomeadamente a gestão do parque escolar até ao secundário, incluindo a contratação dos professores ( deixando ao ministério da feitura dos programas, a avaliação final e a fiscalização das escolas, eliminando assim as estruturas intermédias tipo Direcções Regionais). A gestão das redes de saúde, excepto os hospitais, sem que isso impeça projectos como a central de compras. A manutenção e construção das vias rodoviárias não principais. Entre muitas outras tarefas, apoiando a criação de grupos intermunicipais para as tarefas de dimensão média, demasiado grandes para o nível autárquico mas demasiado pequenas para o nível central.
Esta descentralização não pode ser feita contudo no actual panorama da vida nacional, nomeadamente do lado do poder local. Isto em virtude de existirem três estrangulamentos de um normal funcionamento do poder local: 1) As leis eleitorais; 2) O financiamento das autarquias e 3) O mapa administrativo das autarquias e das freguesias.
Assim, a primeira medida terá de ser erradicar estes três estrangulamentos.
Isso passa por alterar a Lei eleitoral; Mudar radicalmente a Lei de Financiamento das autarquias; Reduzir o número de câmaras municipais e de juntas de freguesia, dando em muitos casos massa crítica e dimensão.
Sobre este tema voltaremos em outro texto, para uma análise mais profunda.
Quais os motivos da crise que atravessamos? Em nosso entender são vários, mas passam sobretudo por dois pontos:
1) Falta de autoridade e de eficácia do Estado nas funções de soberania e de regulação económica. Exemplos? A justiça e o caos que lhe está instalado. E não falamos dos processos mediáticos dos últimos anos. Refiremo-nos sim à morosidade e lentidão dos tribunais, nomeadamente na parte comercial, que acarretam enormes prejuízos aos agentes económicos. Ou o sector dos impostos, que começa agora a mudar, mas que até à bem pouco tempo vivia uma situação de descredibilização, com a sensação de impunidade fiscal.
2) Ao mesmo tempo que o Estado praticamente abandonou as funções de soberania, criou, porque dá votos, um Estado social que gasta como a Suécia, mas produz resultados como o Brasil. Ou seja, gasta-se muito (inputs), mas obtêm-se pouco (outputs). É sobretudo um Estado que gasta mal. E que ainda por cima criou esse Estado social apoiado numa economia que regra geral vive de fundos comunitários e compete com a China e a India. Era evidente que o filme ia acabar mal. A dúvida era quando. A dúvida terminou: É agora!